Tenho refletido sobre o momento em que o Brasil atravessa na aceleração do ritmo produtivo, em especial no setor da construção civil, e faço aqui algumas ponderações sobre esta situação.
As empresas de ponta precisam repensar o fato de que não adianta apenas crescer, crescer e crescer, sem reestruturar e buscar mão de obra adequada e altamente qualificada. Vivenciamos hoje uma corrida desesperadora de grandes construtoras para preencher seus quadros de profissionais — muitas inclusive buscando contratar profissionais de várias outras construtoras e concorrentes — sem haver um plano de capacitação para esses profissionais em padrões de qualificação, uma vez que as obras estão em andamento e precisam ser executadas a qualquer custo. Não cabe mais neste contexto de crescimento, no entanto, o profissional despreparado, cujo único objetivo é apenas melhorar sua remuneração: o resultado será desastroso.
O mercado concentrado na mão de poucos irá inchar e os profissionais, em sua maioria, leiloarão seus proventos, aproveitando as oportunidades que parecem atraentes. Hoje, existem mais profissionais pensando diuturnamente em como fazer para participar de processos seletivos, do que aqueles que pensam estrategicamente em soluções de Engenharia, traçando, por meio dessas ações, o seu crescimento profissional. Basta fazermos uma pesquisa e, com certeza, esta afirmação será constatada: a cultura construtiva não está sendo acompanhada.
Em um futuro bem próximo, ninguém ganhará com essa situação, pois as patologias esmagarão as margens de lucro e as empresas, apenas depois de vivenciarem esse achatamento, irão concluir que a euforia e as oportunidades de negócios não valeram a pena, pois o resultado, mais uma vez, foi calamitoso. Irão constatar que não se adequaram e não contrataram profissionais qualificados, o que resultará em graves prejuízos para a qualidade dos seus empreendimentos. Este é o binômio com que nos deparamos: crescimento acelerado e falta de mão de obra qualificada.
Nessa situação não há troca ou proveito, pois cada grande empresa está vivendo o problema cultural construtivo de sua própria maneira e, assim, não sobra tempo para treinar ninguém. E há ainda mais dois fatores cruciais a serem considerados: os altos salários (nada compatíveis com o potencial dos profissionais oportunistas) e a proliferação de mão de obra sem a desejável competência profissional (em função da necessidade de crescimento dos incorporadores). Por causa disso, os departamentos de Engenharia estão cada vez mais sufocados com orçamentos que não acompanham tais oscilações.
Para amenizar estes acontecimentos, setores relacionados com gestão, treinamentos e estratégia deveriam promover fóruns de debates, produzirem esclarecimentos e encaminharem sugestões para diretores de empresas e incorporações com a finalidade de demonstrar que elas precisam, primeiramente, saber se podem crescer no mercado com a atual mão de obra disponível. Depois, precisam ser orientadas para definirem o tamanho do crescimento esperado e planejarem estrategicamente esse crescimento, evoluindo, assim, juntamente com os parceiros e com o seu pessoal direto.
Esta solução evitaria o boom do mercado e o balizaria de forma a homogeneizá-lo. Como consequência, haveria mais profissionais treinados dentro das várias culturas construtivas que o mundo da construção civil hoje comporta e necessita. Como tudo é evolutivo, teríamos uma aceleração gradativa com melhor seleção de pessoal e com um pouco mais de tempo para os treinamentos internos de cada construtora. Além disso, diferentemente do que observamos na atualidade, as empresas poderiam paulatinamente formar novos negócios e desenvolver parceiros muito mais capacitados e com visão estratégica do negócio e do volume de obras que seu cliente teria para curto, médio e longo prazos.
Além da necessidade de reflexão sobre a capacitação da mão de obra, vejo a necessidade de busca pela industrialização de forma progressiva, muito bem consolidada, com resultados e protótipos que venham solidificar o resultado esperado. Não sou favorável às megatendências de mercado, pois ninguém conhece ao certo os resultados e também não sabe se haverá parceiros disponíveis para assumir tanto o volume quanto a tecnologia implementada, o que, muitas vezes, requer uma estratégia empresarial que o parceiro não tem condições de assumir.
Ou seja, as empresas precisam saber primeiro o que o parceiro pode assumir. Não podem simplesmente despejar um volume gigantesco de expectativas, deslumbrando-o com lucros que ele dificilmente conseguirá no futuro. Este, na verdade, é um problema de dupla mão, pois os parceiros, assim como as construtoras, também buscam profissionais para executar tarefas para as quais não foram treinados, sendo que muitos deles chegam sem conhecimento algum sobre o mercado. E, assim, forma-se um ciclo vicioso e interminável, que permite soluções imediatistas, que geram problemas proporcionais ao tamanho das oportunidades. É preciso, por isso, dominar profundamente a situação e buscar formas de anular os fatores negativos do crescimento, de modo que seja possível atender à forte demanda que estrategicamente o parceiro não tem como honrar, pois lhe falta visão de futuro, além de tempo e condições requeridos para dimensionar a empresa.
Em resumo, inicialmente é necessário buscar a visão estratégica dos empreendedores sobre a complexidade de crescimento, pensando na disponibilidade de mão de obra e parceiros. Em um segundo momento, investir na industrialização e formação de parceiros especializados, treinados e envolvidos com a nova tecnologia.
Este artigo tem como objetivo expor mais uma vez o que todos estão falando há muito tempo. Não estou inventando a roda. Só quero deixar aqui mais um registro de que é necessário mudar, analisar e aperfeiçoar os objetivos de cada empresa e aonde ela quer chegar.
Uma observação interessante: escrevi originalmente este texto em 18 de março de 2008. Desde então, transcorreram 24 meses e este panorama retrata exatamente o que cada investidor, incorporador, construtor e todos aqueles que investem na construção civil têm vivenciado no seu dia a dia.
Os engenheiros contratados no sufoco, e sem treinamentos específicos, geraram um grande retrabalho nas obras. Consequentemente, os custos dos empreendimentos estão maiores do que as viabilidades e os atrasos na entrega dos empreendimentos são inevitáveis, colocando em risco a credibilidade de todos aqueles que responsavelmente estão enfrentando esses problemas.
Acredito que todos nós da Engenharia temos que repensar e mudar o que não está dando certo, privilegiando os que ficaram e estão junto com as empresas. Mais do que isso, temos que buscar formas de reduzir os atrasos dos empreendimentos, pois, atualmente, a média de atraso das obras é de 20%.
Acima de tudo, precisamos seriamente refletir: valeu a pena acompanhar a euforia do mercado e embarcar na ditadura do comercial?
Fica aqui o meu novo alerta. Temos que melhorar e acreditar nos profissionais da Engenharia. Só assim todos sairão ganhando.
* Paulo Roberto é Diretor Técnico da PL Planejamento Ltda., empresa com 13 anos de mercado e atuação em 9 estados, parceira de diversas companhias do ramo da construção civil. A PL Planejamento estruturou um sistema próprio de gestão operacional, focado no resultado físico e econômico das obras que monitora. Recentemente, a empresa foi certificada ISO 9001:2008 nos processos operacionais referentes à medição física de obras.